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sexta-feira, 13 de maio de 2016

PERSONAGEM


Cecília Meireles

Teu nome é quase indiferente 
e nem teu rosto mais me inquieta. 
A arte de amar é exactamente 
a de se ser poeta. 

Para pensar em ti, me basta 
o próprio amor que por ti sinto: 
és a ideia, serena e casta, 
nutrida do enigma do instinto. 

O lugar da tua presença 
é um deserto, entre variedades: 
mas nesse deserto é que pensa 
o olhar de todas as saudades. 

Meus sonhos viajam rumos tristes 
e, no seu profundo universo, 
tu, sem forma e sem nome, existes, 
silêncio, obscuro, disperso. 

Teu corpo, e teu rosto, e teu nome, 
teu coração, tua existência, 
tudo - o espaço evita e consome: 
e eu só conheço a tua ausência. 

Eu só conheço o que não vejo. 
E, nesse abismo do meu sonho, 
alheia a todo outro desejo, 
me decomponho e recomponho.

MOTIVO

Cecilia Meireles

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
— não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
— mais nada.

sábado, 11 de junho de 2011

APOCALIPSE

Do céu descem as fúrias mostrando as faces cansadas da vida
Levando almas largadas na terra, trazendo o beijo do trovão
E o riso de mim!

Do mar surgem as fúrias calando o canto tristes das sereias
Gritando o clamor imperioso das ondas, trazendo a carícia do tubarão
E o riso de mim!

Do chão brotam as fúrias anunciando uma guerra em fim
Chorando em vozes de lamento, trazendo a suavidade do fogo
E o riso de mim!

No ar paira a fúria que se oculta na premonição
Que se liberta em clarão de trevas, trazendo um abraço de solidão
E eu rio dela!



ADAPTAÇÃO

Às vezes, me faço poeta, e me torno a você:
Minha musa predileta.

Caminho, então, pelo alfabeto inteiro
Para lhe buscar as letras mais harmoniosas.

Por uma e outra, continuo meu caminho,
para voltar, quem sabe, num outro
Em vestes de pássaro, ou em trote de cavalo.

Qualquer que seja a forma, é deleitada à sua imagem.
Mesmo que não lhe represente nada.
Mesmo que me custe tudo.

Serei, embalde, sempre poeta, e você será sempre musa.
Serei, se preciso, um cavalo em galopes aos versos.
Ou serei um pássaro sobrevoando outros versos.

E, assim, serei eterno ao seu amor, ao seu encanto.
Porque sei ser poeta e viajo, quando posso
Pelas formas mágicas de um alfabeto.