sexta-feira, 13 de maio de 2016

OU ISTO OU AQUILO


Cecília Meireles

Ou se tem chuva e não se tem sol,
ou se tem sol e não se tem chuva!

Ou se calça a luva e não se põe o anel,
ou se põe o anel e não se calça a luva!

Quem sobe nos ares não fica no chão,
quem fica no chão não sobe nos ares.

É uma grande pena que não se possa
estar ao mesmo tempo nos dois lugares!

Ou guardo o dinheiro e não compro o doce,
ou compro o doce e gasto o dinheiro.

Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo…
e vivo escolhendo o dia inteiro!

Não sei se brinco, não sei se estudo,
se saio correndo ou fico tranqüilo.

Mas não consegui entender ainda
qual é melhor: se é isto ou aquilo.

PERSONAGEM


Cecília Meireles

Teu nome é quase indiferente 
e nem teu rosto mais me inquieta. 
A arte de amar é exactamente 
a de se ser poeta. 

Para pensar em ti, me basta 
o próprio amor que por ti sinto: 
és a ideia, serena e casta, 
nutrida do enigma do instinto. 

O lugar da tua presença 
é um deserto, entre variedades: 
mas nesse deserto é que pensa 
o olhar de todas as saudades. 

Meus sonhos viajam rumos tristes 
e, no seu profundo universo, 
tu, sem forma e sem nome, existes, 
silêncio, obscuro, disperso. 

Teu corpo, e teu rosto, e teu nome, 
teu coração, tua existência, 
tudo - o espaço evita e consome: 
e eu só conheço a tua ausência. 

Eu só conheço o que não vejo. 
E, nesse abismo do meu sonho, 
alheia a todo outro desejo, 
me decomponho e recomponho.

CANÇÃO


Cecília Meireles

Pus o meu sonho num navio
e o navio em cima do mar;
- depois, abri o mar com as mãos,
para o meu sonho naufragar.

Minhas mãos ainda estão molhadas
do azul das ondas entreabertas,
e a cor que escorre de meus dedos
colore as areias desertas.

O vento vem vindo de longe,
a noite se curva de frio;
debaixo da água vai morrendo
meu sonho, dentro de um navio...

Chorarei quanto for preciso,
para fazer com que o mar cresça,
e o meu navio chegue ao fundo
e o meu sonho desapareça.

Depois, tudo estará perfeito;
praia lisa, águas ordenadas,
meus olhos secos como pedras
e as minhas duas mãos quebradas.

MOTIVO

Cecilia Meireles

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
— não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
— mais nada.

quinta-feira, 3 de março de 2016

RACISMO

Resultado de imagem para racismo

Recentemente assisti um vídeo na internet em que uma senhora, ao perceber que ao seu lado viajaria um negro, pede a uma comissária que lhe arrume outro lugar, pois lhe incomodava sentar-se ao lado de um negro.
Atenciosa, a comissária diz que vai solicitar ao comandante o que se pode fazer.
Volta pouco depois, sorrindo e dizendo que não era para a senhora se preocupar, pois o comandante avisara que ela não viajaria ao lado do negro. Para isso havia providenciado um lugar na primeira classe. 
A "madame", já começava a se levantar, sorrindo satisfeita por ser direcionada ao melhor lugar do avião, quando a aeromoça lhe interrompe:
- Desculpe, senhora. Mas o lugar na primeira classe é para o senhor ao seu lado, uma vez que o comandante achou que ele não mereceria viajar ao lado de uma pessoa com a sua maneira de pensar. 

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

MINUTO DE SABEDORIA


           Narudim era um sábio que vivia na idade média.
           Certo dia ele andava por uma cidade da costa mediterrânea quando viu dois jovens se aproximando de um velho que mendigava. Um dos jovens mostrou duas moedas e o mendigo escolheu a de menor valor. Os rapazes riram da falta de sensatez do velho e saíram rindo.
          Narudim continuou a olhar o velho mendigo e percebeu que outras pessoas se aproximavam, mostravam duas moedas e ele sempre escolhia a de menor valor.
          Incomodado com a simplicidade do velho por escolher sempre o valor errado, Narudim se aproximou e perguntou ao velho se ele não conhecia o valor das moedas.
          "Sim, eu conheço, meu nobre", respondeu o velho mendigo.
          "Então, porque não escolhe a moeda de maior valor?"
          "Porque gosto que eles me tomem por tolo. Se eu escolher a moeda de maior valor, eles deixaram de colaborar com minhas necessidades. Enquanto riem de mim, vão me dando moedas. E assim, todos os dias, sou mais feliz que os demais mendigos, que se consideram muito mais espertos que eu".
          Narudim, satisfeito com a explicação do velho mendigo, sorriu e lhe deu uma pequena bolsa de moedas, dizendo:
          "Esse dinheiro não é uma esmola, mas a paga por uma lição de vida que me deu".
          Compreendeu ele que é melhor se passar por tolo sendo inteligente, que se passar por inteligente sendo todo. Afinal, ser sábio é não dizer tudo o que conhece e ser tolo é não conhecer tudo que diz.

sábado, 2 de novembro de 2013

BEIJA-FLOR


Beija-flor suave em pétala resiste a sorver doce sabor, ardor 
A lascívia
 saliva tenta, atormenta, resiste, insiste
Beija-flor em arco simétrico, deslisa, alisa, aspira, conspira 
Adorável geografia plana, plena, desponta em gêmeos acordes, deleite, enfeite
 
Esta vaga planície aveludada onde se esbalda o leão, rufião, sedução
 
Beija-flor em vértice, sem aresta a floresta aspira, inspira, transpira, conspira
 
Gostosa geometria perfeita, pilares a se afastar, constatar 

A maçã que se oferece a quem melhor apetece, quem não merece.
Arrefece em néctar a esbaldar, acredite, manjar
 de Afrodite.
Beija-flor em tempo infinito, se desprendendo da flor, sabor, ardor
.
Se encontra a 
ganhar o espaço, sem limites, arrebites.
Recanto úmido, aconchego orvalhado, desfolhado.
Beija-flor profano, insano, soberano
Soprando ao vento o canto da ave ferida, querida, dor maldita
Seja a aurora bem vinda, se finda a noite... boa noite!